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Martin Lutero: homem intérprete das Escrituras
Falar sobre o Reformador da Igreja do Século XVI é envolver-se com uma figura apaixonante. E isso não apenas pela questão histórica e da ciência teológica, que por si só já mostrariam quão revolucionária foi a sua aparição no cenário alemão e mundial. Mas sim por conta de sua figura humana, demasiado humana. Não é possível, nesse breve artigo, dar a vocês mais do que um cicio, uma pequena brisa dos ventos impetuosos que se alastraram por todo o mundo a partir da Reforma Luterana. Será apenas o primeiro convite para navegar em seus mares, às vezes calmos e, na maioria das vezes, trazendo o prelúdio de mudanças. Iniciamos com este uma série de artigos sobre o Reformador e a Reforma Luterana. Hoje, para vocês, duas estações na vida de Lutero. Primeira Estação: 15/03/1509 Lutero, recém chegado em Wittemberg para estudar, doutorar-se, escreve uma carta aos seus amigos do monastério em Erfurt, onde havia sido ordenado Padre. Desculpa-se, primeiramente, por não ter se despedido e fala um pouco sobre os seus estudos. Conta de como ele não gosta da filosofia escolástica que ele tem de estudar(o que não quer dizer que ele não a estuda, como muitos de nós que, quando não gostam de um tema, apenas fazem de conta). Diz que gostaria de trocar a filosofia pela teologia. Entretanto, enfatiza: “Mas eu quero dizer uma teologia que seja capaz de adentrar no miolo da noz, no centro do grão de trigo, no tutano do osso.” Uma teologia que não fique com a casca, com a aparência de falar sobre Deus sem se dar conta do que isso significa para o ser humano, que se perca nas suas elucubrações e não responda aos anseios humanos profundos de relação com Deus. E é por isso que ele começa a ler a Bíblia. É a Palavra de Deus que será o guia luterano para qualquer questão. A Verdade está na Palavra de Deus. Mas nós precisamos interpretá-la para chegar ao tutano do osso! Leitura superficial e preconceituosa é a que fica com a casca. E a casca é justamente o que devemos colocar fora! Segunda Estação: 26/10/1516 Quando a Peste chega à cidade de Wittemberg e os amigos próximos pedem a Lutero que fuja para a sua segurança, que se abrigue em outra cidade onde a peste ainda não esteja ceifando vidas, ele reponde: NÃO! E isso não por soberba. Não porque ele é mais forte e corajoso que os outros. Ele manda os seus alunos embora, para que se salvem, pois tristemente ele constata que a peste está levando a sua juventude, os jovens que ainda não vieram a dar seus frutos. É por isso que ele os manda embora da Universidade até que a peste passe. Mas quanto a ele? Vejam suas próprias palavras nesta carta: “Não é que eu consiga encarar a morte sem medo, pois eu não sou o Apóstolo Paulo, sou apenas um humilde intérprete do que o Apóstolo falou..mas eu fui chamado para esta Universidade e aqui é o meu lugar..Deus vai arrancar esse medo que eu sinto, assim eu espero.” Saber que o grande Reformador era como tu e eu, que tinha suas dúvidas e medos e angústias, que também tinha de tomar decisões que poderiam ser de vida ou de morte, enobrece ainda mais o seu legado..pois Deus nos deu a humanidade para ser vivida em humanidade. Não somos Deuses e nem anjos..e também não precisamos ser! Enquanto hoje as pessoas frequentam as igrejas em busca de milagres sobrenaturais, para Lutero o verdadeiro milagre é encarar sua própria humanidade e engajar-se apaixonadamente pela humanidade, com tudo que isso significa. E o que a gente não entender ou temer, depositar carinhosamente nas mãos de Deus. |